Apresentação

Onde a história, nobreza e literatura se misturam

Você já se imaginou como uma senhorinha ou sinhozinho, num passeio de domingo, em pleno século XV? Se não, saiba que, como morador da Tijuca, você, provavelmente, vive perto de um antigo engenho de cana de açúcar ou, talvez, de uma plantação de café cultivada por índios e escravos. A história do bairro é tão ampla que até seu nome, originário do tupi, ty-iuc, que significa alagadiça e cheia de lama, como era a área na época, foi dado com referência ao outro lado da serra, na Lagoa da Tijuca, Baixada de Jacarepaguá. De fato, toda área ao pé do maciço da Tijuca e da serra do Andaraí era um grande pântano que pertencia aos jesuítas até o governo do Marquês de Pombal, administrador da colônia no reinado de Dom José I.

Que tal se imaginar em um diálogo, mais ou menos, assim:
- É tarde! Apressemo-nos em chegar à Estrada de Mata-Porcos.
- Por onde iremos? Vamos desviar na bifurcação e seguiremos no caminho da Bica.
- Não! Iremos pelo Caminho do Andaraí Pequeno.
- Que ventura, como é belo aquele lugar!
- Vamos, pronto! Desfrutemos do sol, que não tarda em despedir-se.
- Dê recomendações à senhora sua mãe. Depois do passeio encontrar-me-ei com meu primo que virá do trabalho, no passo do Caminho do Engenho Velho.

Agora, imagine a mesma conversa nos dias de hoje:
- Já está tarde!  Temos que nos apressar e chegar rápido à Rua Frei Caneca.
- Por onde vamos? Vamos cortar caminho pelo Largo do Estácio e seguir por São Cristóvão.
- Não, vamos pela Conde de Bonfim!
- Que bom! Lá é muito bonito!
- Vamos logo! Vamos aproveitar o pôr do sol.
- Manda lembranças para a sua mãe. Depois do passeio vou me encontrar com meu primo que vem do trabalho, na rua Haddock Lobo.

Resgatando a história

Quando conhecemos a história da cidade e da ocupação dos seus bairros, ficamos ainda mais apaixonados por ela.
 
A região onde hoje é a Tijuca já foi conhecida como Engenho Velho, uma das fazendas de cana-de-açúcar da Sociedade de Jesus. Os primeiros tijucanos, portanto, foram os jesuítas. Eles receberam terras de Mem de Sá, um nobre administrador colonial português, através de sesmaria, instituto que legalizava a distribuição de terras destinadas à produção. Mem de Sá esperava que os padres pudessem tirar sustento dessas terras para levar adiante os trabalhos da igreja. Assim, os jesuítas substituíram a mata nativa pela cana- de-açúcar montando, por volta de 1583, três engenhos na região: o primeiro chamado Engenho Velho; o segundo, Engenho Novo; e, o terceiro, Engenho de São Cristóvão. Os jesuítas mantinham vida econômica ativa nas suas terras que, além da cana-de-açúcar, serviam para a criação de gado, agricultura de subsistência e fabricação de cal e anil, atividades que contavam com mão-de-obra escrava. Ao lado do Engenho Velho, os jesuítas construíram uma capela dedicada a São Francisco e, a atual matriz de São Francisco Xavier é resultado das diversas obras realizadas nesta capela. As terras doadas aos jesuítas eram extremamente extensas, tanto é que representavam a área que, hoje, abriga os bairros do Rio Comprido, Estácio, São Cristóvão, Maracanã, Tijuca, Vila Isabel, Grajaú, Andaraí, Engenho Novo, Méier e Benfica.  

Depois de expulsos do Brasil, em 1759, pelo governo de Portugal, os bens dos padres jesuítas foram incorporados ao Fisco Real que os colocou à venda, o que contribuiu para a divisão da região em propriedades rurais. O ciclo do café intensificou a ocupação das terras. Nobres europeus eram atraídos pelos bons negócios que o café proporcionava e pelo clima ameno da floresta. Muitos deles aumentaram suas fortunas com base na exploração da área, principalmente as próximas dos rios Maracanã e Trapicheiros e ao longo da atual Rua Conde de Bonfim. O francês Louis François Lecesne (1759-1823), dono da fazenda São Luiz que ficava nas montanhas da Tijuca, foi o pioneiro do plantio do café em larga escala, no Rio de Janeiro. Em 1760, com a intensificação desse plantio, o Rio de Janeiro começou a sofrer com o desabastecimento de água. Principalmente na Tijuca, lugar predileto para os cafezais, a mata era derrubada para ceder lugar a mais pés de café nos morros e encostas. As terras da Floresta da Tijuca estavam devastadas. Já naquele tempo, sabia-se que o desmatamento das margens e nascentes prejudica os rios e, como a água continuava escassa, em 1817 o governo passou a regular a extração vegetal, porém essas determinações nem sempre eram cumpridas, porque o café da Tijuca rendia gordos impostos ao Tesouro. Em 1838, o transporte animal chegou à Tijuca facilitando o acesso à região. A Serra da Tijuca foi o caminho natural para a criação de novas fazendas e cafezais que, graças à sua prosperidade, acabaram acelerando o processo de devastação da mata atlântica, assustando o Imperador D. Pedro II que, em 1861, determinou o replantio total da floresta, o que resultou na criação do Parque Nacional da Tijuca, maior floresta urbana do mundo. Vale ressaltar que a Floresta da Tijuca foi criada sem qualquer propósito turístico ou de lazer, mas devido ao grave problema de abastecimento de água na cidade, cuja população se expandia pelos morros e baixada ao longo do século XIX.

Das chácaras à urbanização, a paisagem e o modo de vida da população foram se transformando... A Tijuca crescia e, em 1870, era atingida por um amplo processo de urbanização. Ruas foram abertas e sistemas de água encanada e iluminação instalados. A Tijuca estava se tornando centro da zona norte, cujo acesso era feito pelas ruas Haddock Lobo e Conde de Bonfim. A partir de 1880, final do século XIX, começaram a surgir fábricas de: tecidos, chapéus, fumo, cerveja, laticínios, conservas, gelo, papel e papelão. Os terrenos foram valorizados e os pequenos proprietários rurais perceberam que o retalhamento de suas propriedades poderia ser um negócio muito lucrativo, tanto é que transformaram suas chácaras em loteamentos e casas de aluguel.  Este processo deu formas definitivas ao bairro.

Por volta de 1900 surge a primeira favela tijucana chamada Morro dos Trapicheiros, atual Salgueiro, que nasceu no loteamento do português Domingos Alves Salgueiro, dono de uma fábrica de conservas na Rua dos Araújos. No período de 1925 até 1950 o concreto armado proporcionou o crescimento vertical, ou melhor, prédios com mais de seis andares, na Tijuca. Os nobres migraram para a zona sul e a classe média composta por funcionários públicos, professores, médicos e profissionais liberais passou a ocupar suas residências, revelando valores tradicionais e conservadores. Grandes loteamentos permitiram a construção de mansões e casas em centro de terreno com quintal, nas ruas Conde de Bonfim, Haddock Lobo, São Francisco Xavier, Barão de Itapagipe e Professor Gabizo. Também surgiram as casas de aluguel, construídas em lotes estreitos e de grande profundidade, que acabaram gerando as vilas, habitadas por famílias com menos recursos, nas ruas General Roca, Carlos de Vasconcelos, José Higino e Marquês de Valença. As mansões da Haddock Lobo e Conde de Bonfim vão sendo transformadas em pensões familiares, estabelecimentos de ensino ou clubes sociais. Durante muito tempo manteve-se o gabarito de prédios com três e quatro pavimentos. Entretanto, a partir dos anos 60, a Região começa um processo acentuado de verticalização e hoje todos os seus bairros possuem edifícios altos.

De 1920 até 1970 surgiram cinemas, leiterias, sorveterias e lambe-lambes. Também, o aumento da favelização gerado pela proximidade da mão-de-obra com o comércio e a indústria, e pelo surgimento dos primeiros prestadores de serviços como cabeleireiros, manicuras, costureiras e alfaiates. Na década de 70, a Tijuca começa a sofrer um processo de “inchaço”, devido ao comércio forte, escolas de alto nível, igrejas e sistema de transporte regular. A escassez de espaço obrigou a verticalização mais intensa das construções. Na Rua Pareto foi construído o primeiro prédio de dez andares do bairro e, a partir de então, os grandes edifícios tomaram conta de ruas importantes como a Conde de Bonfim, Haddock Lobo, Antonio Basílio, Desembargador Izidro. Esta verticalização ficou ainda mais forte, nos anos 60, com a abertura dos túneis Santa Bárbara e Rebouças, que facilitaram o acesso ao bairro, intensificando o fluxo de tráfego na região. Em 1976 foram iniciadas na Tijuca as obras do Metrô, as quais duraram seis anos, interferindo, na época, negativamente na vida do tijucano mas, hoje, um sistema de transportes incorporado à vida do bairro.

Historicamente, a Tijuca se destaca em três aspectos: pelo seu pioneirismo na indústria, na educação e por abrigar marcos culturais da cidade. O pioneirismo no campo industrial surgiu com a Fábrica de Chitas, uma estamparia de tecidos instalada por volta de 1830 no largo, hoje Praça Saens Peña, assim denominada em 1911 em homenagem ao presidente argentino de mesmo nome. A Fábrica das Chitas tornou-se o foco mais importante de urbanização da região.

No segmento da educação, desde as últimas décadas do século XIX a Tijuca abriga instituições de características únicas que marcaram época na história, como o Colégio São Vicente de Paula, o Instituto Lafayette, Instituto de Educação (primeiro colégio feminino para a formação de professoras) e o primeiro Colégio Militar do Brasil (antigo Imperial Colégio Militar da Corte). O terceiro aspecto de destaque do bairro está ligado ao esporte e lazer. Primeiro o turfe que, em 1851, passou a fazer parte da vida carioca, por ocasião da primeira corrida de cavalos no Prado Fluminense, construído perto da estação São Francisco Xavier. Depois, o ciclismo com as famosas corridas nas pistas do Velo que, em 1912, ficavam superlotadas para reverenciar o campeão português Pedro Vasques. E, o futebol, em jogos disputados nos estádios do América Futebol Clube, extinto Vila Isabel Futebol Clube e, no templo maior do futebol mundial, o Estádio do Maracanã, construído para a Copa do Mundo de 50. Outro evento importante foi a inauguração, em 1907, do Pathé Cinematográfico, na rua Haddock Lobo. Até o final da década foram inaugurados mais nove cinemas na Tijuca, quando a Praça Saens Peña ganhou fama de Broadway brasileira, passando viver intensa movimentação cultural cujo auge aconteceu em 1940, com a inauguração do Cine Olinda, o maior cinema do Brasil. Na área musical, a Tijuca também tem tradição. Em 1929, surgiu no bairro o Bando dos Tangarás formado por Noel Rosa, Almirante, João de Barro, Alvinho e Henrique Brito. Eles popularizaram o samba, ao divulgar suas composições no Brasil. A região tem, ainda, grande valor histórico por ter acolhido em suas terras figuras de renome na história política e econômica do País.

Hoje, a Tijuca, bairro de classe média, conta com expressivo setor de comércio, serviços, hospitais, clínicas, escolas, universidades e transportes. No Rio de Janeiro, o cidadão tijucano tem, também, o melhor índice de desenvolvimento humano (IDH) em longevidade, visto que a maioria dos moradores do bairro tem mais de 60 anos. Muito participativas, as tijucanas mais idosas não abrem mão das academias de ginástica e das aulas de dança, canto/coral e informática. Já os homens passam horas tranquilas no carteado na Praça Saens Peña. Características históricas e sociais fazem da Tijuca o retrato mais nobre do Rio de Janeiro, destacando-se dos demais bairros da Zona Norte, cujo extremo de identidade coletiva levou a população a criar o uso da expressão “tijucanos” que não encontra equivalente em nenhum outro bairro da cidade.


Praça Saens Peña em 1910

Praça Saens Peña em 1932

Praça Saens Peña em 1984