Geografia
Praça Saens Peña

Praça Saens Peña: a “Cinelândia Tijucana”

Por volta de 1820, a Tijuca era uma área rural, com chácaras particulares e fazendas de café. Em um de seus trechos, próximo a atual Praça Saens Peña, instalou-se uma fábrica de chitas, ou melhor, uma estamparia que manufaturava tecidos indianos, considerada uma das primeiras indústrias do país. Próximo a ela existia o Largo da Fábrica, que ficava no encontro de dois caminhos: o Caminho do Andaraí Pequeno que conhecemos, hoje, por Rua Conde de Bonfim e, a Travessa do Andaraí, chamada de Rua da Fábrica das Chitas, atual Desembargador Isidro. A área era conhecida como Bairro da Fábrica das Chitas e foi o primeiro foco de urbanização da região. Em 1911, o Largo da Fábrica foi rebatizado de Praça Saens Peña, em homenagem aos ex-presidente argentino Roque Sáenz Peña. O novo logradouro foi inaugurado pelo Prefeito Bento Ribeiro, do Distrito Federal, ganhando o primeiro projeto paisagístico de inspiração francesa.

O “boom cultural” da Praça Saens Peña aconteceu a partir de 1920, com a criação dos cinemas Tijuquinha, América e Carioca. O projeto original da Praça, que foi totalmente descaracterizado, é de autoria de José da Silva Azevedo Neto que, no seu entorno, optou pelas construções em estilo Art Déco, típicas da década de 30. Dois exemplos marcantes são os prédios dos cinemas Carioca (hoje templo da Igreja Universal do Reino de Deus) e América, nas esquinas da Rua Major Ávila, hoje mais conhecida como Rua das Flores. Na década de 40 foi criado o Metro Tijuca e o cinema Olinda, um dos maiores do Rio de Janeiro. Nos anos 50 surgiram o Eskie, Art-Palácio e o Britânica. Também vieram os edifícios comerciais e residenciais no estilo modernista, uma influência de Oscar Niemeyer. Nos anos 60/70 foram inaugurados o Bruni Tijuca e o Cinema Rio. Hoje, não vemos mais essas belezas arquitetônicas, mas contamos, ainda, com um remanescente do estilo eclético, o prédio da antiga Casa Granado, inaugurado antes da década de 20.

Nos anos 50, os domingos da Praça Saens Penã eram radiosos para as crianças que podiam se divertir com um “guignol”, ou melhor, teatro de fantoches e com a banda marcial que se apresentava no coreto da Praça, onde hoje está o lago. Os jovens optavam pelo recém inaugurado Café Palheta, que se tornou “point”, inclusive, dos astros da Jovem Guarda. Devido ao crescente número de linhas de bonde e ônibus que cruzavam ou faziam ponto final na Praça Saens Peña, no seu entorno formou-se um sub-centro comercial que atendia aos moradores da Tijuca e dos bairros vizinhos: Andaraí, Vila Isabel, Grajaú. Mais tarde, isso resultou na abertura de filiais das grandes lojas do centro da cidade, agências bancárias e edifícios comerciais e de serviços. Em 1970, a Praça Saens Peña tinha cerca de doze cinemas, dois a mais que a Cinelândia. Eles perderam sua finalidade, passando a ser usados para cultos religiosos e instalação de lojas e prédios comerciais.  

A paisagem da Praça se transformou ainda mais, com o início das obras do Metrô, em 1976. Apesar do verdadeiro caos urbano em que ela ficou mergulhada, após a inauguração do Metrô, a Saens Peña se tornou um importante ponto de ligação entre as zonas norte e sul. Isso resultou na expansão do comércio. Filiais das grandes lojas do centro da cidade foram abertas na região, assim como agências bancárias e edifícios comerciais e de serviços. Após 1980, com a inauguração de três estações do Metrô, o comércio da Praça ganhou galerias comerciais, depois hipermercados e, finalmente, os shopping centers.

Em 1990, novas obras interditaram a Saens Peña, desta vez, uma intervenção paisagística que ampliou o espelho do lago, trocou o calçamento de pedras portuguesas para blocos de concreto coloridos, modificou a posição dos brinquedos e dos bancos e, ainda, criou um local coberto para carteado e jogos de dama. A Praça também foi enclausurada por grades e portões. Sua estátua em bronze, com o radioginasta tijucano Osvaldo Diniz Magalhães, foi remanejada para as proximidades da Rua Carlos de Vasconcelos.

Hoje, conhecemos a Praça Saens Peña por ser importante pólo econômico da Tijuca, com shoppings de grande movimento, como o 45 e o Tijuca. O metrô e dezenas de linhas de ônibus conduzem o tijucano à maior parte dos bairros da cidade. Se não quiser sair do seu perímetro, ele conta com toda a infra-estrutura necessária, inclusive cultural, podendo freqüentar teatros, no SESC, na Rua Barão de Mesquita; clubes, como o Tijuca Tênis, o América e o Municipal; e cinemas, restritos aos shoppings.

A Tijuca é um sentimento. Segundo o escritor Nelson Rodrigues: “Você pode sair da Tijuca, mas a Tijuca nunca sairá de você”.

Curiosidades:

Os cinemas são registros históricos da Tijuca. O primeiro deles o Pathé Cinematográfico foi inaugurado em 1907, na Rua Haddock Lobo nº. 27. Até o final da década, outros nove cinemas foram abertos, apelidando a Tijuca de “Broadway Tupiniquim”. O auge da “sétima arte” aconteceu na década de 40, quando foi inaugurado na Saens Peña o cinema Olinda, o maior do Brasil, com 3.500 lugares.Na década seguinte, a Tijuca assistiu a decadência dos cinemas e o apogeu do futebol, com a abertura do Estádio Mário Filho, às margens do rio Maracanã.

Vítima do boom dos vídeos domésticos e da migração dos cinemas para os shoppings, o Metro Tijuca, demolido em 1978, deixou saudade nos corações de muitos tijucanos que passaram boa parte da infância assistindo aos Festivais Tom e Jerry, de desenhos animados. Mas sempre existe alguém mais saudoso, como Ivo Raposo, aficcionado pelos antigos faroestes. Ele construiu uma réplica fiel do tradicional Metro Tijuca, em Conservatória, terra da seresta.

Apelidado de Centimetro, por ter espaço para apenas 60 espectadores de sorte, o cinema exibe a originalidade das poltronas, piso, lustres, portas, lixeiras e, até mesmo, as urnas para coleta de ingressos. Um trabalho de garimpagem feito por Raposo que, ainda, se deteve em minúcias, como os entalhes em gesso e o luminoso em néon.